Home

Artigos e Relatos de Experiências

SEMANA Nacional DA pessoa COM Deficiência

21-28 de agosto de 2005

 

Do igual ao diferente

 

De 21 a 28 de agosto lembramos a Semana da Pessoa com Deficiência. A palavra mestra é inclusão. Inclusão parece estar na moda. Ouvimos falar em educação inclusiva, uma sociedade mais inclusiva, igrejas inclusivas, em atitudes inclusivas. Mas pensar e “fazer” inclusão, não é nada fácil. Na verdade, inclusão é algo complexo.
 

Inclusão é processo. Ninguém nasce sabendo ser inclusivo ou exclusivo. Inclusão faz parte do processo de educação, desde os primeiros anos, com os pais ou educadores, colegas, dentro de uma determinada cultura e valores.
Por que inclusão é complicada? Porque até hoje só aprendemos um lado da moeda,  a sermos excludentes. Vivemos num mundo em que é a exclusão que perpassa nossa educação, nossa cultura e, conseqüentemente, nossas atitudes.

 

No mundo dos esportes as medalhas são para os três primeiros lugares, mas ouro, só para o primeiro. No futebol só tem o time que venceu o campeonato. Os demais são excluídos de qualquer premiação. Na educação quem já não ouviu “se você se comportar direitinho ganha bala”, ou “porque você não faz como sua irmã”. Nas escolas, ainda a maioria, optam pelo uniforme – todo mundo igual. Quem já não ficou de fora da aula de Educação Física porque não veio com o agasalho exigido, ou porque estava vestindo jeans? E a  seleção nos vestibulares! Quer exemplo maior de processo excludente que este?!
 

Não podemos ser ingênuos e acharmos que um dia o mundo será totalmente inclusivo. Mas, certamente, temos que aprender a nos tornarmos mais inclusivos.
Isso significa mudança e como isso é algo que perpassa as múltiplas esferas da existência humana, inclusão implica em mudança de paradigmas. Inclusão implica num olhar para si e para o mundo sob outro ângulo. Implica, basicamente, em lidar com as diferenças. O igual não nos assusta, mas o diferente nos provoca, muitas vezes nos incomoda, nos deixa irritados e irritadas, nos ameaça e nos desafia.
Incluir não é dar lugar ao diferente, mas é reconhecer que ele sempre teve seu lugar. Diferentes formas físicas, diferentes pensamentos, diferentes jeitos de amar sempre existiram, nós é que nos recusamos a enxergar. Incluir nos desafia a olhar para uma situação limite e descobrir, com criatividade, bom humor, simplicidade e ousadia, que o limite pode ser o início de um novo horizonte e que limites existem para serem quebrados, superados.
 

Numa atitude muito espontânea, minha filha de dois anos e meio me mostrou isso semana passada. Estávamos arrumando aquelas bagunças que acumulamos em algum lugar na casa. Na minha casa, esse lugar é a garagem. Tira coisas daqui, arruma ali. Algumas coisas são organizadas e caixas sempre sobram. Num instante, olhei para trás e vi minha filha brincando dentro de uma das pequenas caixas que estavam desocupadas. Ela sorriu e disse: “Vem qui mamãe com Bába”. Cheguei perto e perguntei: “O que tu está fazendo”. “Brincando de casinha. Vem mamãe, entra qui Bába”. Eu reagi negativamente: “Mamãe não cabe aí filha”. Ela insistia para eu entrar. Eu insistia em dizer que não havia como. Minha surpresa foi quando ela rasgou a caixa e disse: “Vem qui mamãe, cabe”. Realmente, a caixa estava toda torta e meia rasgada, mas ela deu um jeito de me incluir na “casinha”.
Que Deus possa estar guiando  nosso olhar para além de nossos limites e que nos dê a força necessária para rasgar nossas barreiras.


Nádia Mara Dal Castel de Oliveira
Coordenadora do Programa com Pessoas com Deficiência
Departamento de Diaconia

 

topo

 

 

 

 

 

 

VALORIZAÇÃO E AUTO-ESTIMA ATRAVÉS DA ARTE

Como a arte pode ser terapêutica?

Para experimentar e refletir isso, veio a psicóloga e psicopedagoga Marisa Coelho Martins de Araújo da APAE-RIO, Rio de Janeiro para os Sínodos Centro-Campanha Sul e Vale do Taquari. No mês de setembro, ela passou uma semana em cada sínodo para trabalhar com pessoas, grupos e instituições que se ocupam com a questão da inclusão social das pessoas com deficiência.

Há oito anos Marisa Coelho é coordenadora da Oficina de Criatividade (OCA) da APAE –RIO. A OCA no Rio de Janeiro é fruto belíssimo da parceria entre a APAE-RIO e a Diakonie Stetten na Alemanha. Quando a Profa. Marisa e outras/os colegas da APAE-Rio chegaram a conhecer a proposta da Oficina de Criatividade da Diakonie Stetten, eles começaram a montar um trabalho parecido, adaptado à realidade brasileira.

Na OCA a Marisa coordena o trabalho de uma equipe de profissionais e voluntárias que atende 40 participantes, todas elas pessoas adultas com deficiência mental. A longa experiência profissional em consultório, na escola regular e em postos de saúde fazem que Profa. Marisa seja uma especialista com horizonte muito aberto e amplo, pressuposto importante para a atuação na área da inclusão e, claro, na arteterapia também.

No âmbito do nosso Sínodo houve encontros e atividades em Cachoeira do Sul com a  AFAD (Associação dos Familiares e Amigos do Down), no Curso dos Normalistas, com a Associação de artistas, com a Oficina de arte inclusiva, com a comunidade evangélica, e duas escolas. Em Santa Cruz do Sul, Marisa palestrou no curso de educação especial da UNISC e trabalhou com os grupos da FCD (Fraternidade cristã de doentes e deficientes), da ASPEDE (Associação Santacruzense de Pessoas com Deficiência) e assessorou um dia de seminário com profissionais da educação. Além disso ela conheceu a APAE e foi convidada para trabalhar uma tarde com as crianças do projeto diaconal ‘Alegria e Esperança’ na Comunidade Centro.

Enfim, o que é que ela fez nos grupos?

Em vez de fazer muita palestra, Marisa logo envolveu as participantes com dinâmicas lúdicas e depois passou para experiências bem práticas de expressão artística. Até pessoas que, no começo hesitaram um pouco, no decorrer da atividade deixaram-se animar e, no final tinha mais que uma pessoa dizendo: ‘Achei que eu não fosse capaz de fazer arte. Agora eu sei que também sou capaz.’ Depoimentos deste tipo provaram que a intenção do encontro foi mais do que alcançada. Muitos de nós sentiram que fazer arte realmente faz bem, ajuda para que a pessoa se conheça melhor e até consegue superar barreiras internas que impedem o desenvolvimento ou o crescimento.

Muitas pessoas que participaram de alguma atividade com a Marisa saíram com uma visão de arte modificada. Foi possível superar um conceito de arte que pensa em categorias como ‘certo’ e ‘errado’, ou que está reservando a arte para artistas famosos e profissionais.

De certa forma, nas oficinas com a Marisa todos nós nos tornamos artistas, tentando expressar algo de nós. Usamos papel e lápis, cola e tesouras, jornal velho e revistas velhas, etc. - tudo material bem acessível. Cada pessoa começou a trabalhar exatamente com o mesmo material e no final saíram obras bem diferentes. Enfim, as obras são tão diferentes quanto as pessoas que as criaram.

Marisa nos alertou para a valorização destas diferenças. Esta foi uma experiência muito rica e valiosa. Outra descoberta: o processo criativo é mais importante do que o produto final. Tornou-se mais significativo o que a pessoa sentiu durante o processo criativo do que somente achar bonito ou não o resultado final. Neste sentido a arte destaca-se de artesanato.

Fazendo arte, deu para perceber a grande potencialidade terapêutica e libertadora dela e curtir o grande prazer de ser criativo. “Esta tarde fez tão bem para mim. Deveríamos ter mais disso” avaliou uma participante da FCD. Outras pessoas  usaram outras palavras, para expressar o mesmo.

Saboreamos o potencial terapêutico da arte para todas e todos nós: mulheres e homens, crianças, jovens e adultos, pessoas da terceira idade, profissionais, voluntárias/os, pessoas sem ou com deficiência.

A Marisa adorou muito as pessoas, as atividades e os encontros aqui no sul do país. Expressou várias vezes que foi uma grande alegria e um grande prazer poder passar adiante os seus conhecimentos profissionais. “Assim”, ela disse, “eu posso compartilhar um pouco daquilo que eu convivi e aprendi na Diakonie Stetten na Alemanha.”

Ela adora a iniciativa dos dois sínodos de promover a valorização e a inclusão das pessoas com deficiência e se sentiu honrada por ser convidada para esta caminhada. Nós agradecemos à Marisa e à todas as pessoas e instituições que agilizaram encontros e atividades com ela. Nos alegramos que este momento da parceria na área da diaconia foi tão rico e proveitoso.

Se Deus quiser será possível achar caminhos para dar continuidade à proposta da arteterapia no Sínodo.

Pedagoga Social Meike Jacobs e pastor Matthias Binder

Santa Cruz do Sul/Diakonie Stetten

topo